A Pena Cor-de-Rosa

 

Desde que nasceu, todos sabiam que ela seria especial. Porque era diferente. Ao contrário de seus pais, irmãs e irmãos, ela não tinha as penas brancas. Suas penas eram cor-de-rosa. E ninguém nunca havia visto, em todo o reino, um cisne dessa cor.  

Além disso, ela havia nascido no mesmo dia do príncipe. Há muito tempo o rei e a rainha planejavam ter um filho e, finalmente, seu desejo fora atendido. Um lindo menino nasceu para trazer ainda mais alegria a esse belo casal.

 

Conforme os anos se passavam, ambos cresciam e tornavam-se, cada qual em seu mundo, belos e bondosos seres. Não havia cisne mais bonito e mais meigo que a cisne rosa. E não se tinha conhecimento de príncipe mais justo e honesto que ele. Era educado e adorava cuidar de todos, especialmente dos cisnes. Passava horas no lago, conversando com eles, alimentando-os e admirando sua beleza e imponência. O que o príncipe não sabia é que da mesma forma que observava os cisnes era também observado por eles. Especialmente pela cisne rosa que desejava, do fundo de seu coração, viver no palácio e participar dos bailes e das aventuras que ele lhe contava e que ela conseguia observar do lago. 

Para celebrar seus 15 anos, o rei e a rainha deram um baile para o príncipe e convidaram seus amigos de todos os outros reinos. Vieram muitas princesas, outros príncipes, nobres, reis e rainhas de todos os cantos do mundo. Ah! Como a cisne rosa gostaria de participar daquela festa. Como ela gostaria de usar um belo vestido, de dançar a noite inteira e, principalmente, de conhecer seu amigo príncipe, de poder conversar com ele. 

Vendo-a em um canto, triste e sozinha, uma fada da floresta apareceu e lhe disse que, como também era seu aniversário, poderia lhe conceder um desejo por uma noite. A cisne rosa não teve dúvidas. Desejou ser humana.  Ou melhor, uma princesa. A mais bonita do baile.

A fada concedeu o seu desejo e, fornecendo-lhe ainda uma carruagem, fez com que a cisne rosa ficasse tão linda, mas tão linda, que todos no baile pararam para olhá-la quando ela chegou. O rei e a rainha logo foram até ela e lhe perguntaram de onde era. Ela disse que vivia em um palácio, muito distante dali. O príncipe logo aproximou-se dela também, para lhe dar as boas-vindas e eles dançaram durante a noite. E conversaram muito também. Porque eram, de fato, muito parecidos.

Por ter gostado dela, ele disse que ia lhe mostrar um grande tesouro do reino. E levou-a até o lago, na intenção de apresentar a cisne rosa. Mas para a sua surpresa, a cisne não estava lá e o príncipe ficou desesperado. Onde ela tinha ido? O que teria acontecido? O baile não parecia mais tão importante e, ao lado da guarda real, ele saiu, noite adentro, para procurar a cisne. Sem saber que, na verdade, a princesa era a cisne rosa.

Ao amanhecer, a metamorfose aconteceu e a princesa se transformou novamente na cisne rosa. A fada, vendo-a chorando, disse que no próximo ano, quando completasse 16 anos, ela teria mais um desejo. 

O príncipe voltou de sua busca bastante desapontado e, ao olhar no lago, junto aos primeiros raios de sol, avistou as penas rosas da cisne. “Onde você estava?” – perguntou ele. “Que susto nos deu. Nunca mais faça isso” – continuou. E, aliviado, deitou-se na beira do lago, parecendo se esquecer totalmente, de sua festa no dia anterior e, consequentemente, da princesa com quem havia conversado. 

Um ano se passou e a fada voltou a aparecer para a cisne rosa. “Qual será agora o seu desejo?” – perguntou. A resposta foi a mesma do ano anterior. Ela queria ser humana. Mas dessa vez, ao invés de ser uma princesa, pediu para ser uma linda dama, julgando que atrairia menos atenção. A fada prontamente atendeu o seu pedido e lá foi ela até o castelo.

 

O problema, porém, era que o príncipe não estava lá. Havia ido com os cavaleiros para outro reino, em uma missão. Todos estavam em busca de um dragão-azul que, supostamente, havia há muitos anos sequestrado uma princesa. De qualquer maneira, foi muito bem recebida pelo rei, pela rainha e pelas demais damas que habitavam o palácio. Quando o sol já estava nascendo no horizonte, disse que era hora de seguir sua viagem e foi para o lago, transformar-se em cisne novamente. 

Após a transformação, a fada se apresentou para ela e disse que ainda restava um pedido. Este poderia ser feito quando ela completasse 17 anos. Mas seria seu último desejo. Depois disso, seria cisne para sempre.

A cisne rosa esperou com ansiedade a data e, quando finalmente chegou, a fada novamente apareceu. Como havia pensado nisso durante todo o ano e por ter tido mais contato com o príncipe, já que ele ia lá todos os dias lhe contar sobre suas aventuras (inclusive aquela do dragão), ela já sabia o que fazer.

Quando a fada lhe perguntou o seu desejo, ela arrancou uma de suas penas e disse que queria ser humana. Disse que queria conservar algo de si mesma, alguma característica que fizesse lembrar de quem ela é. Agitando a sua varinha como nunca antes havia feito e com um brilho cintilante, a cisne rosa foi envolta em uma poeira de estrelas e, quando saiu dela, era a mais encantadora das jovens de todo o reino. Seu vestido era branco e bordado com pequenas flores, seus olhos eram azuis como o lago que habitava e seu cabelo era do mesmo tom de cor-de-rosa de suas penas.

Assim ela foi até o castelo e se apresentou como uma amiga do príncipe. Todos ficaram encantados com sua beleza, mas também bastante curiosos, porque, certamente, se lembrariam dela. Quando o príncipe a viu, soube que a conhecia de algum lugar, só não se lembrava de onde.

Ele convidou-a para conhecer o castelo e, quando ficaram sozinhos, sem dizer nenhuma palavra, ela lhe mostrou sua pena.  Ele não podia acreditar no que via. O tom da pena e o tom do cabelo eram o mesmo. A delicadeza dela. Sua bondade. Ela só o fazia lembrar a cisne. Poderia ser mesmo verdade?  

Ela lhe contou toda a história e o príncipe ficou feliz por vê-la na forma humana. Muito feliz. Mas quando percebeu que eles teriam apenas essa tarde e uma noite, ficou bastante desapontado. Ofereceu-a um delicioso jantar, acompanhado de uma bela dança. Tratou-a como uma verdadeira princesa e ela não estava acreditando que, finalmente, estava realizando o seu sonho. Conhecera o castelo, conversara com o príncipe e, acima de tudo, podia ser ela mesma. 

Mas a noite avançava e o príncipe foi com ela até o lago. Havia chegado o momento da despedida. Nenhum dos dois queria isso, pois estavam gostando mais do que imaginavam da companhia um do outro. Na verdade, estavam apaixonados, mas ainda não sabiam disso.

Ela lhe entregou a pena e pediu que guardasse com carinho. Como prova de que um dia havia sido humana. Ele disse que guardaria em uma pequena caixa com o símbolo de um cisne e, segurando em sua mão, beijou-a. Ele iria todos os dias ao lago para vê-la. Era uma promessa. Abraçados, esperaram o Sol chegar para que a metamorfose acontecesse e adormeceram.

Eles não viram o que aconteceu a seguir mas as fadas da floresta, tocadas com o amor puro entre eles, juntaram seus poderes e jogaram uma poderosa magia sobre os dois, iluminando toda a floresta com suas varinhas encantadas.  

Quando despertou, no dia seguinte, ela ainda era humana. Acordou-o, gritando de felicidade e o príncipe achou, durante algum tempo, que estava sonhando. A fada, mais uma vez apareceu e contou que, junto a suas irmãs, lançou um feitiço ligando a vida dos dois. Eles seriam humanos durante o dia e cisnes durante a noite. Assim, poderiam conviver com suas duas famílias e poderiam ficar juntos para sempre. Transbordando de felicidades, ambos foram correndo ao palácio contar ao rei e a rainha o que havia acontecido e, à noite, transformados, contaram aos cisnes do lago.

O casamento entre eles aconteceu um mês depois e todo o reino ficou maravilhado com a beleza da princesa. O segredo, é claro, foi preservado. Ninguém poderia saber quem ela era. Por isso, foi apresentada como Rosa, a princesa do lago. O que não era mentira. A família da cisne, que já gostava do príncipe, também ficou muito contente com a união do casal e a fada transformou a todos, nesse dia, em humanos, para que eles pudessem acompanhar a cerimônia.  

Os dois foram muito felizes e tiveram muitos filhos, que também eram humanos durante o dia e podiam se transformar em cisnes durante a noite. O dom foi passado de geração em geração até que, após muitos e muitos anos, foi totalmente perdido. E os descendentes do príncipe e da cisne rosa se tornaram apenas humanos. 

A caixinha com a pena cor-de-rosa foi guardada com carinho pela cisne e transmitida para as mulheres de sua família, para que todas se lembrassem de quem ela era e de como se tornara uma princesa. E eu sei que essa história é verdadeira, porque encontrei essa caixinha, na casa de minha bisavó, há alguns anos, em um dia que ela e meu bisavô alimentavam os cisnes no lago.  

* Esse conto fui eu quem escrevi! 

Carolina Chamizo Babo: Jornalista e Mestre em Comunicação é autora do livro "Era Uma Vez... Outra Vez: A Reinvenção dos Contos de Fada". Apaixonada desde cedo por contos e mitos, se arrisca a escrever algumas histórias, como essa que você acabou de ler.